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Opinião: Como avançar na maturidade BIM no Brasil?

Atualizado: 18 de Dez de 2019

*Por Wilton Catelani


A criação do 'BIM Fórum Brasil' e do 'Chapter brasileiro da Building Smart'


Nos últimos anos, muito já foi feito no Brasil para divulgar e estimular a adoção dos processos Building Information Modeling (BIM) na indústria da construção, tanto pelo setor público quanto pelo privado. Os resultados desses esforços já foram medidos por pesquisas de maturidade BIM realizadas no País, e não se questiona. É fato que evoluímos.


Essa evolução poderia ter sido ainda mais expressiva se não fosse a intensidade da crise que atingiu nosso segmento. Mas, uma reflexão interessante é: o que falta para que o Brasil consiga evoluir e avançar na sua maturidade BIM mais rapidamente e de maneira consistente? Essa resposta já existe e pode ser encontrada em publicações do pesquisador Bilal Succar — sim, ele novamente.


Por que BIM?


Ainda temos poucos dados locais, mas informações estrangeiras (´Benchmarking the Government Client Stage Two Study – December 1999´) e de consultorias internacionais (como Mckinsey) indicam que 70% dos empreendimentos de construção de edificações são entregues com atraso e 73% acabam custando mais do que seus orçamentos. Nossos trabalhadores tem maiores chances de sofrerem acidentes fatais e nosso segmento desperdiça recursos demais, é ineficiente e muito improdutivo quando comparado a outros setores. Não temos a cultura de investir em inovação e digitalização e, ao mesmo tempo, os projetos e os canteiros de obras estão se tornando cada vez mais complexos.


BIM endereça as principais dores e anseios da indústria da construção civil, é a atual expressão da inovação nesse segmento e representa o primeiro passo da sua transformação digital.


BIM no mundo e na América Latina


Atualmente, são 15 os países que já exigem o BIM para a realização de projetos públicos. Outros 15 países estão definindo processos e políticas para a exigibilidade do BIM — o Brasil figura neste grupo. E, outros cinco, embora não exijam, encorajam seu uso e apresentam evidências incontestáveis disso, como a publicação de documentos importantes, a criação de um Chapter da Building Smart, entre outros.


Na América Latina, em maio de 2018, em Santiago - Chile, iniciou-se a criação de um bloco que reúne representantes dos governos de diversos países. Denominado ´Red BIM de Gobiernos Latino-Americanos´, esse bloco conta, atualmente, com oito países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Peru e Uruguai). Ele já realizou quatro reuniões e tem recebido apoio institucional e financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).


Neste momento, também está em desenvolvimento uma pesquisa de maturidade BIM que abrange 18 países da América Latina. Trata-se de uma iniciativa também apoiada pelo BID, que tem suporte técnico da consultoria Dodge e está mobilizando as câmaras da construção em torno do BIM, aumentando a sua relevância na nossa região.


BIM no Governo Federal, no Parlamento e nos Estados


O governo federal brasileiro tem feito a sua parte. Desenvolveu a Estratégia BIM BR, criou o CG-BIM e o Comitê interministerial Gestor, responsável pela sua implementação. Mais recentemente, através do Edital de Chamamento Público, n. 003/2019, do Ministério da Economia, também reservou recursos e está na fase final de contratação da realização de cinco metas e 12 iniciativas específicas para, ao mesmo tempo, remover barreiras e estimular a adoção do BIM no Brasil.


Recentemente, por meio de um requerimento do deputado federal Hildo Rocha, foi recriada, na Câmara, a Frente Parlamentar BIM. No nível dos estados, Santa Catarina foi pioneiro na estruturação de uma política específica para exigibilidade do BIM. Sabe-se que outros estados também têm feito seus esforços específicos e, mais recentemente, no dia 19 de outubro de 2019, foi criado o Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud). Este, é um acordo de cooperação entre os estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo para estabelecer uma estratégia comum de disseminação do BIM.


Como medir a maturidade BIM de um país?


As publicações do pesquisador B. Succar indicam que os focos das avaliações e análises da maturidade são diferentes, na medida em que se ascende numa ´escala de adoção BIM´. Dessa forma, no nível ´micro´, quando se avalia um único indivíduo ou uma unidade organizacional isoladamente, as discussões deverão ser diferentes da abordagem para o nível ´meso´, quando se analisa a maturidade de uma equipe de projeto (envolvendo várias empresas), e do nível ´macro´, que é o nível mais amplo e se refere a um mercado ou um país inteiro, no qual o ponto central a ser avaliado deverá ser a difusão de todos os conceitos, padrões e referências e a coordenação. Isto, para que não haja retrabalho nem tampouco a perda de esforços.


As referências desenvolvidas por B. Succar estruturam, detalham e listam cinco dimensões para a medida dos processos, tecnologias e políticas utilizadas num país. Uma dessas cinco dimensões é denominada 'nível de maturidade´ dos principais habilitadores para a adoção BIM nos mercados. Essa dimensão se subdivide em oito componentes de maturidade: Estágios, Liderança, Leis & Regulamentos, Documentos Técnicos, Educação & Capacitação, Gestão da Evolução, Padronização de ´Entregáveis BIM´ e Infraestrutura Tecnológica. Eles podem ser classificados em cinco níveis: 1 – Baixa (ou adhoc), 2 – Média-baixa (ou definida), 3 – Média (ou Gerenciada), 4 – Média-alta (ou Integrada) e 5 – Alta (ou Otimizada).


Em 2017, o nível de maturidade BIM, do Brasil, para o componente da Liderança, poderia ser considerado médio-baixo, que é descrito como: ´há um ou mais líderes voluntários e/ou impulsionadores BIM informais atuando no país´. Os principais esforços de disseminação do BIM, nesse período, eram realizados por desenvolvedores de softwares e por algumas empresas, organizações ou grupos específicos e isolados. Em 2018, quando foi desenvolvida a ´Estratégia BIM BR´, poderíamos dizer que o país evoluiu para o nível de ´média maturidade´, que é descrito como: ´há um grupo de trabalho ou comitê unificado dirigindo a implementação / difusão de BIM no país´.


Entretanto, a nossa meta deve ser a de galgar o próximo nível desta escala que é o médio-alto, descrito como: ´Impulsionadores organizados coordenam todas as ações de macroadoção, minimizando sobreposições de atividades e atuando sobre as lacunas na difusão´.


O BIM Fórum Brasil


Uma pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), realizada no final do ano de 2018, identificou e estudou 50 entidades que visam a coordenação das atividades relacionadas à difusão do BIM em mais de 40 países. Essa pesquisa indicou, claramente, que estamos atrasados neste ponto específico, no Brasil, e que deveríamos criar uma nova entidade: o BIM Fórum Brasil, com a missão de realizar essa necessária coordenação de esforços para difusão, de maneira equalizada e representando os diferentes e principais interesses daqueles que integram a cadeia produtiva da construção.


O nome BIM Fórum Brasil revelou-se como o mais adequado, quando se considera que, em oito dos países pesquisados, as entidades correlatas adotam esse mesmo nome.

Os dados coletados na pesquisa e as análises das organizações existentes no mundo serviram como subsídio para o desenho da entidade brasileira, que prevê duas maneiras para a participação dos futuros associados: uma abordagem estratégica, a partir da escolha de um dos sete colegiados previstos, ou num viés técnico, através da participação em um dos grupos técnicos de trabalho (temáticos) que serão criados.


Os colegiados foram ´pensados´ e propostos para representarem os ´interesses´ dos diferentes integrantes da cadeia da construção e seriam os seguintes: 1 – Proprietários, Incorporadores e Investidores, 2 – Governos e Autarquias, 3 – Empreiteiros e Construtores, 4 – Escritórios de Projetos, Coordenação, Consultoria e Gerenciadoras, 5 – Fabricantes de Componentes, 6 – Desenvolvedores de Softwares e 7 – Academia e Entidades de Capacitação de RH. Ao se associar, uma empresa ou entidade deverá escolher um (e apenas um) dos sete colegiados que melhor represente seus ´interesses´. Inicialmente, foi proposto que apenas pessoas jurídicas poderiam se associar ao BIM Fórum Brasil.


O trabalho de definição prévia do BIM Fórum Brasil incluiu a proposta de uma visão e de uma missão (preliminares) para a nova entidade, uma lista dos potenciais benefícios para as cinco diferentes categorias de associação (Patrocinadores, Platinum, Gold, Silver e Bronze), a definição de valores para as anuidades, os custos para a sua operação e também uma proposta inicial para o seu estatuto. Esse estudo inicial do estatuto define e detalha 87 artigos e é um instrumento chave para garantir que a entidade uma vez criada possa, de fato, cumprir o propósito principal que justifica sua criação, de maneira independente da ´vontade´ ou interesse de pessoas ou grupos específicos.


A criação do Chapter Brasileiro da Building Smart


A Building Smart é uma organização internacional sem fins lucrativos que estuda e visa a troca de informações entre aplicativos de software usados na indústria da construção. É a organização que desenvolveu o Industry Foundation Classes (IFC), que é uma estrutura expansível de dados — e também um formato de arquivo — neutro e aberto, que hoje é suportado por uma Norma ISO, e é utilizado para a interoperabilidade entre diferentes softwares BIM. A Building Smart define padrões para a organização das informações incorporadas nos objetos e modelos BIM, tornando possível que diferentes softwares as entendam e possam reutilizá-las realizando processos ou parte deles, de maneira automatizada.


A Building Smart trabalha através de ´Chapters´ no mundo todo. A criação dessa organização no Brasil já vem sendo discutida há algum tempo e quando viabilizada, também vai representar o aumento da maturidade BIM do nosso País.


Conclusão


Embora os avanços da maturidade BIM do Brasil, nos últimos anos, sejam visíveis e inquestionáveis, não temos ainda uma organização que, efetivamente, possa coordenar as ações de macroadoção, minimizando a sobreposição de atividades e atuando sobre as lacunas na difusão.


Numa situação ideal, precisaríamos criar uma instituição cuja estrutura de governança não permita o domínio de sua direção por nenhum grupo específico. Que pudesse, realmente, representar os vários atores da cadeia produtiva, se estabelecer como a principal referência de BIM no País e se consolidar como líder nas ações para sua difusão, atuando na coordenação dos esforços de forma neutra, abrangente e harmônica.


Em 25 de novembro passado, a CBIC reuniu, em São Paulo, alguns dos principais nomes envolvidos com o BIM no Brasil. Nesse evento, foi apresentada e discutida a iniciativa de criação do BIM Fórum Brasil e também foi proposta a criação do Chapter Brasileiro da Building Smart  não como outra entidade isolada mas, sim,´dentro´ do BIM Fórum Brasil, ou seja, como uma das suas iniciativas ´pétreas´, o que a caracterizaria como uma ação que não poderá ser paralisada ou ´extinta´.


Nesta ocasião, estiveram presentes diversas entidades como o Comitê Brasileiro de Túneis (CBT), além de empresários e representantes de empresas relevantes da indústria da construção. Todos os presentes concordaram sobre a importância da criação do BIM Fórum Brasil e também sobre a conveniência de criar o Chapter Brasileiro da Building Smart vinculado a ele.


CBIC e Senai já têm investido na iniciativa da criação do BIM Fórum Brasil e pretendem continuar apoiando. Vão ´incubar´ o nascimento da nova entidade, mas os recursos disponíveis, atualmente, disponíveis são insuficientes para sua viabilização.


Empresas e entidades interessadas em colaborar com esta iniciativa poderão celebrar ´convênios de cooperação financeira´ e ´protocolos de intenção para associação futura´ fazendo contato através do e-mail comat@cbic.org.br. As articulações e negociações vão continuar e será criado e lançado um ´Manifesto de Apoio à criação do BIM Fórum Brasil e do Chapter brasileiro da Building Smart´. Esteja atento e assine esse ´Manifesto´. Junte-se à essa iniciativa fundamental para o avanço da maturidade BIM do Brasil.



*Consultor em Building Information Modeling (BIM) da

Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)

e consultor estratégico e integrante do Comitê

Estratégico do Governo Federal

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